Quando errar faz o cérebro aprender
Por que a infância precisa de tentativas, descobertas e novas possibilidades, não de perfeição

Uma torre caiu. A peça não encaixou. O desenho ficou diferente do que a criança imaginava. A resposta não estava correta.
Diante dessas situações, muitos adultos sentem vontade de mostrar imediatamente a maneira certa de fazer. Afinal, queremos evitar que a criança se frustre ou perca tempo em uma tentativa que não funcionará.
Mas será que todo erro precisa ser corrigido imediatamente?
Na infância, tentar, observar o resultado e modificar uma estratégia são partes importantes da aprendizagem. Quando encontra uma diferença entre aquilo que esperava e o que realmente aconteceu, a criança recebe uma nova informação sobre o mundo.
O erro, portanto, não precisa ser visto apenas como uma falha. Em um ambiente seguro, ele pode se transformar em pergunta, investigação e descoberta.
O cérebro trabalha com expectativas
Nosso cérebro procura antecipar o que acontecerá.
Quando uma criança empilha blocos, por exemplo, ela desenvolve uma expectativa, ainda que não consiga explicá-la verbalmente: “Se eu colocar esta peça aqui, a torre continuará em pé”.
Se a construção cai, existe uma diferença entre a expectativa e o resultado. Na neurociência, essa diferença pode ser chamada de erro de previsão.
De maneira simplificada, o cérebro utiliza informações inesperadas para atualizar expectativas e orientar ações futuras. A criança pode perceber que a base estava estreita, que uma peça era pesada demais ou que precisará mudar a posição dos blocos.
Na próxima tentativa, ela já não parte exatamente do mesmo ponto.
Pesquisas sobre aprendizagem mostram que sinais relacionados aos erros de previsão participam da atualização de comportamentos e decisões. Esse mecanismo não se limita às atividades escolares: ele também aparece em aprendizagens motoras, sociais e cotidianas. Joiner et al., 2017
Isso não significa, entretanto, que todo erro ensine automaticamente.
Para que uma tentativa se transforme em aprendizagem, a criança precisa conseguir perceber o resultado, receber apoio adequado e ter a oportunidade de pensar ou tentar novamente.
Errar não é o mesmo que fracassar
O modo como os adultos reagem influencia o significado que a criança atribui ao erro.
Quando uma tentativa é recebida com impaciência, exposição ou julgamento, a criança pode começar a relacionar o erro à vergonha. Em vez de pensar “essa estratégia não funcionou”, pode concluir “eu não sou capaz”.
Essa diferença é fundamental.
O erro descreve algo que aconteceu em uma situação específica. O fracasso, quando entendido como identidade, transforma um resultado momentâneo em uma avaliação da própria criança.
Compare estas duas respostas:
“Você fez errado de novo.”
e
“Essa tentativa não funcionou como você imaginava. O que poderíamos modificar?”
Na primeira, o foco recai sobre a criança e sua suposta incapacidade. Na segunda, recai sobre o processo e abre espaço para reflexão.
Estudos sobre desenvolvimento infantil indicam que a maneira como adultos oferecem orientações e feedback pode influenciar a persistência, a motivação e a percepção que a criança constrói sobre suas próprias capacidades. Elogios ou críticas centrados em características fixas — como “você é inteligente” ou “você não leva jeito para isso” — podem ter efeitos diferentes daqueles direcionados às estratégias e ações utilizadas. National Academies, 2015
O erro produtivo precisa de segurança
Permitir tentativas não significa deixar a criança sozinha diante de uma dificuldade impossível.
Existe uma diferença entre um desafio que desperta curiosidade e outro que gera uma frustração intensa e prolongada.
O erro tende a ser mais produtivo quando:
A criança se sente segura para experimentar;
O desafio é compatível com suas possibilidades;
Existe tempo para observar o resultado;
O adulto oferece apoio sem assumir completamente a tarefa;
A tentativa pode ser revista;
O feedback mostra caminhos possíveis;
O ambiente não utiliza o erro para comparar ou constranger.
Por outro lado, quando a criança está muito cansada, ansiosa ou diante de uma tarefa distante de suas capacidades atuais, insistir repetidamente pode não produzir uma aprendizagem significativa.
O objetivo não é fazer a criança errar de propósito nem abandonar a orientação. É compreender que a aprendizagem não exige uma sequência perfeita de acertos.
Corrigir ou deixar tentar novamente?
A resposta depende da situação.
Se houver risco à segurança, o adulto precisa intervir imediatamente. Também pode ser necessário demonstrar uma ação quando a criança ainda não possui os conhecimentos básicos para realizá-la.
Em outras situações, porém, vale esperar alguns segundos e observar.
Antes de corrigir, o educador ou familiar pode perguntar:
“O que você percebeu?”
“Aconteceu como você imaginava?”
“O que fez a torre cair?”
“Qual parte você gostaria de mudar?”
“Existe outro jeito de tentar?”
“Você quer uma pista ou prefere experimentar mais uma vez?”
“Que material poderia ajudar?”
Essas perguntas devolvem à criança uma participação ativa. Em vez de apenas receber a resposta correta, ela é convidada a observar, elaborar hipóteses e tomar decisões.
Uma revisão de pesquisas sobre feedback corretivo na infância mostra que o feedback pode favorecer a aprendizagem, mas sua eficácia depende de fatores como idade, conhecimento anterior, tipo de tarefa e qualidade da informação oferecida. Dizer apenas “está errado” costuma oferecer menos orientação do que indicar o que pode ser observado ou revisto. Fyfe, Borriello e Merrick, 2023
O papel do professor: oferecer pistas, não respostas prontas
Na Educação Infantil, o professor acompanha processos.
Isso significa observar como a criança pensa, quais estratégias experimenta, o que desperta sua curiosidade e em que momento precisa de ajuda.
Imagine uma criança tentando encaixar diferentes objetos em uma abertura. Se o professor mostra imediatamente qual peça utilizar, a atividade termina rapidamente. Se ele pergunta “o que você percebe sobre o tamanho dessa peça?”, cria uma oportunidade para comparação e investigação.
A mediação pode acontecer de diversas formas:
Reorganizar os materiais;
Chamar a atenção para um detalhe;
Relembrar uma tentativa anterior;
Demonstrar apenas uma parte da ação;
Fazer uma pergunta;
Convidar um colega a compartilhar uma estratégia;
Dar tempo para que a criança observe;
Incentivar uma nova tentativa.
O professor não desaparece do processo. Sua presença é intencional, mas não substitui a ação da criança.
Errar também envolve emoções
Aprender com uma tentativa exige mais do que compreender intelectualmente o que aconteceu. É preciso lidar com a emoção provocada pelo resultado.
Crianças pequenas ainda estão desenvolvendo recursos para enfrentar decepções, mudanças e expectativas não realizadas. Por isso, ouvir “tente novamente” pode não ser suficiente quando a criança está frustrada.
Primeiro, pode ser necessário acolher:
“Você ficou chateado porque queria muito que desse certo.”
Depois, ajudar a organizar a experiência:
“Vamos olhar juntos para o que aconteceu?”
Somente então surge espaço para pensar em uma nova possibilidade.
Acolher não significa eliminar todo desconforto. Significa mostrar que a frustração pode ser atravessada com apoio e que um resultado inesperado não ameaça o vínculo com o adulto.
Cuidado com o elogio automático
Valorizar o processo não significa repetir “parabéns pelo esforço” em todas as situações.
A criança percebe quando o elogio é genérico ou desconectado da experiência. Um feedback mais útil descreve algo concreto:
“Você percebeu que a base precisava ser maior.”
“Quando não encaixou, você escolheu outra peça.”
“Você pediu ajuda e depois continuou sozinho.”
“Sua primeira ideia não funcionou, mas você encontrou outro caminho.”
“Você observou com atenção antes de tentar novamente.”
Esse tipo de comentário ajuda a criança a reconhecer suas próprias estratégias.
Também é importante não elogiar apenas a persistência. Algumas vezes, aprender significa interromper, descansar, pedir ajuda ou abandonar uma estratégia que não está funcionando.
Persistir não é repetir indefinidamente a mesma ação. É conseguir avaliar o que pode ser modificado.
Como as famílias podem apoiar em casa
O cotidiano apresenta inúmeras oportunidades para construir uma relação mais saudável com o erro.
Evite realizar a tarefa imediatamente
Se a criança estiver tentando fechar um botão, montar um brinquedo ou organizar seus materiais, observe antes de assumir a ação.
Pergunte se ela deseja ajuda e ofereça apenas o suporte necessário.
Mostre que os adultos também erram
Quando cometer um erro, diga com naturalidade:
“Eu pensei que funcionaria dessa maneira, mas não funcionou. Vou tentar de outro jeito.”
A criança aprende não apenas com as orientações que recebe, mas também com a forma como os adultos lidam com as próprias dificuldades.
Troque “certo ou errado” por observação
Em algumas situações, pergunte:
“O que aconteceu?”
“O que mudou?”
“Como você descobriu isso?”
“O que faria diferente na próxima vez?”
Não compare
Frases como “seu irmão já consegue” ou “seus colegas fizeram mais rápido” deslocam a atenção da descoberta para a comparação.
O ponto de referência mais saudável é o próprio processo da criança.
Reconheça quando é hora de pausar
Nem toda tentativa precisa ser concluída naquele momento. Descansar e retomar depois também faz parte da aprendizagem.
A escola deve ser um lugar onde é possível experimentar
Uma educação comprometida com a infância não busca crianças que acertem tudo rapidamente. Busca crianças que observem, façam perguntas, construam hipóteses e desenvolvam confiança para explorar.
Pesquisas sobre monitoramento de erros indicam que reconhecer uma resposta inesperada e adaptar o comportamento são capacidades que se desenvolvem ao longo da infância. Há também indícios de que as experiências pedagógicas podem influenciar a forma como crianças se relacionam com os próprios erros, embora parte importante desses estudos tenha sido realizada com crianças maiores e ainda exija novas investigações. Denervaud et al., 2020
Esse cuidado científico é importante: a neurociência não oferece uma fórmula pronta para a sala de aula. Ela ajuda a formular melhores perguntas e a compreender que aprender envolve processos cognitivos, emocionais e sociais profundamente conectados.
Menos perfeição, mais descoberta
Quando uma criança erra, existe um intervalo precioso entre o que ela imaginou e o que realmente aconteceu.
Nesse intervalo podem nascer uma pergunta, uma comparação, uma nova estratégia e uma descoberta.
Na Escola Universo, valorizamos experiências nas quais as crianças possam investigar, criar, rever ideias e construir soluções com o apoio atento dos educadores. O resultado é importante, mas o caminho percorrido também revela aprendizagens fundamentais.
Não queremos ensinar que errar é sempre agradável ou que qualquer dificuldade deve ser celebrada. Queremos mostrar que uma tentativa que não funciona não encerra o processo.
Ela pode ser o começo de uma nova compreensão.
Porque aprender não é acertar tudo na primeira vez.
É observar, pensar, receber apoio e descobrir que existem outros caminhos.
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Referências
DENERVAUD, S.; FORNARI, E.; YANG, X.-F. et al. An fMRI study of error monitoring in Montessori and traditionally-schooled children. npj Science of Learning, v. 5, artigo 11, 2020. Acessar estudo.
FYFE, E. R.; BORRIELLO, G. A.; MERRICK, M. A developmental perspective on feedback: How corrective feedback influences children’s literacy, mathematics, and problem solving. Educational Psychologist, v. 58, n. 3, p. 130–145, 2023. Acessar estudo.
JOINER, J.; PIVA, M.; TURRIN, C.; CHANG, S. W. C. Social learning through prediction error in the brain. npj Science of Learning, v. 2, artigo 8, 2017. Acessar estudo.
NATIONAL ACADEMIES OF SCIENCES, ENGINEERING, AND MEDICINE. Transforming the Workforce for Children Birth Through Age 8: A Unifying Foundation. Washington, DC: The National Academies Press, 2015. Capítulo: Child Development and Early Learning. Acessar publicação.
SCHRODER, H. S.; FISHER, M. E.; LIN, Y. et al. Neural evidence for enhanced attention to mistakes among school-aged children with a growth mindset. Developmental Cognitive Neuroscience, v. 24, p. 42–50, 2017. Acessar estudo.


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