Atenção, memória e autocontrole também se aprendem
Entenda como as funções executivas se desenvolvem na infância e ajudam a criança a aprender, conviver e conquistar autonomia

Imagine as seguintes situações: uma criança precisa guardar os brinquedos antes de iniciar outra atividade; esperar sua vez durante uma brincadeira; lembrar duas orientações dadas pelo professor; ou tentar uma estratégia diferente quando uma construção não funciona.
Embora pareçam ações simples para um adulto, todas elas exigem um conjunto complexo de habilidades cognitivas. Essas habilidades são chamadas de funções executivas.
Elas nos ajudam a organizar pensamentos e ações, manter a atenção, controlar impulsos, lembrar informações importantes e adaptar o comportamento diante de novas situações.
Na infância, essas capacidades ainda estão em desenvolvimento. Por isso, quando uma criança tem dificuldade para esperar, interrompe uma atividade, esquece uma orientação ou se frustra diante de uma mudança, isso não significa necessariamente falta de interesse, preguiça ou desobediência.
Muitas vezes, estamos observando um cérebro que ainda está aprendendo a se organizar.
O que são funções executivas?
As funções executivas podem ser comparadas a uma espécie de sistema de organização do cérebro.
O Centro sobre o Desenvolvimento Infantil da Universidade Harvard utiliza a imagem de uma torre de controle de tráfego aéreo: assim como os profissionais de um aeroporto precisam administrar diferentes aviões, rotas e informações simultaneamente, nosso cérebro precisa coordenar pensamentos, emoções e ações para alcançar um objetivo.
Três habilidades são especialmente importantes:
Memória de trabalho
É a capacidade de manter uma informação na mente por alguns instantes e utilizá-la em uma ação.
Uma criança usa a memória de trabalho quando escuta “guarde o livro e depois lave as mãos” e consegue realizar as duas etapas. Ela também utiliza essa habilidade ao lembrar as regras de uma brincadeira, acompanhar uma história ou recuperar uma informação para resolver um problema.
Não se trata apenas de decorar. É conseguir trabalhar mentalmente com uma informação.
Controle inibitório
É a capacidade de interromper uma reação automática e pensar antes de agir.
Essa habilidade aparece quando a criança espera sua vez, evita pegar imediatamente o objeto que deseja, escuta o colega ou consegue parar o corpo durante uma brincadeira de movimento.
O controle inibitório também participa da regulação emocional. Ele ajuda a criança, gradualmente, a encontrar outras respostas diante da frustração, em vez de agir somente pelo impulso.
Isso não acontece de uma hora para outra. É uma capacidade construída ao longo da infância, com experiências, apoio e repetição.
Flexibilidade cognitiva
É a capacidade de mudar de perspectiva, adaptar uma estratégia ou lidar com uma alteração de planos.
A criança utiliza a flexibilidade cognitiva quando percebe que uma peça não cabe e escolhe outra, aceita desempenhar um personagem diferente em uma brincadeira ou encontra uma nova maneira de construir algo.
Ela também precisa dessa habilidade quando a rotina sofre alguma mudança ou quando descobre que outra pessoa pode pensar de forma diferente.
Por que essas habilidades são importantes?
Antes de aprender conteúdos mais complexos, a criança precisa desenvolver recursos internos para participar das experiências de aprendizagem.
Para acompanhar uma história, por exemplo, ela precisa direcionar a atenção, lembrar acontecimentos anteriores e relacioná-los ao que está ouvindo. Para realizar uma atividade em grupo, precisa compreender orientações, controlar alguns impulsos e considerar as ações dos colegas.
As funções executivas estão relacionadas a diferentes dimensões do desenvolvimento:
Aprendizagem;
Organização;
Comunicação;
Autonomia;
Resolução de problemas;
Regulação emocional;
Convivência;
Adaptação a novas situações.
Isso não significa que crianças pequenas devam demonstrar o mesmo autocontrole de uma criança maior ou de um adulto. As áreas e os circuitos cerebrais envolvidos nessas capacidades passam por um desenvolvimento prolongado.
Por esse motivo, as expectativas precisam ser adequadas à idade e às características de cada criança.
Quando o comportamento comunica uma habilidade em construção
Diante de um comportamento desafiador, é comum perguntar: “Por que essa criança não obedece?”.
Uma pergunta mais produtiva pode ser: “Qual habilidade ela ainda precisa desenvolver para conseguir agir de outra maneira?”.
Considere uma criança que tem dificuldade para guardar os brinquedos. Ela pode estar profundamente envolvida na brincadeira, não compreender todas as etapas da orientação ou ainda não conseguir interromper uma atividade de que gosta com facilidade.
Nesse caso, repetir a ordem em voz mais alta nem sempre resolve. Pode ser mais eficaz aproximar-se, estabelecer contato, oferecer uma instrução de cada vez e antecipar a transição:
“Daqui a pouco vamos guardar os brinquedos. Você quer começar pelos blocos ou pelos carrinhos?”
Isso não significa retirar os limites. Significa oferecer o suporte necessário para que a criança consiga, progressivamente, responder ao que está sendo solicitado.
Como a Educação Infantil contribui para esse desenvolvimento?

As funções executivas não são desenvolvidas apenas por atividades específicas ou exercícios isolados. Elas são praticadas nas experiências cotidianas, nas relações, nas brincadeiras e na participação da criança em uma rotina segura e significativa.
Brincadeiras com regras
Jogos como estátua, dança das cadeiras, morto-vivo e brincadeiras de imitação exigem atenção e controle dos movimentos.
A criança precisa ouvir, interpretar um sinal e ajustar sua ação. Além de divertidas, essas experiências oferecem oportunidades para praticar o controle inibitório.
Faz de conta
Ao brincar de restaurante, escola, mercado ou consultório, as crianças criam personagens, mantêm uma narrativa e negociam papéis.
Para sustentar a brincadeira, precisam lembrar o que foi combinado, considerar as ideias dos colegas e adaptar a história à medida que novas situações aparecem.
Música e movimento
Brincadeiras musicais trabalham memória, ritmo, atenção e coordenação.
Quando uma canção propõe alternar movimentos, acelerar, diminuir o ritmo ou parar diante de um sinal, a criança precisa controlar o corpo e acompanhar mudanças.
Histórias e conversas
Escutar uma história envolve acompanhar uma sequência, lembrar personagens, antecipar acontecimentos e relacionar informações.
Perguntas como “O que você acha que acontecerá agora?” ou “O personagem poderia ter feito algo diferente?” estimulam memória, imaginação e flexibilidade de pensamento.
Projetos e investigações
Quando participa de um projeto, a criança levanta hipóteses, testa materiais, registra descobertas e revê ideias.
Nesse processo, aprende que uma resposta pode não aparecer imediatamente e que diferentes tentativas fazem parte da aprendizagem.
Rotinas previsíveis
Uma rotina organizada ajuda a criança a compreender o que acontecerá ao longo do dia.
A previsibilidade oferece segurança e facilita transições. Aos poucos, a criança consegue antecipar ações, assumir pequenas responsabilidades e participar com mais autonomia.
Qual é o papel do professor?
O desenvolvimento dessas habilidades depende também da qualidade das interações estabelecidas com os adultos.
O professor observa o que a criança já consegue realizar sozinha e identifica quando ela precisa de apoio. Esse suporte pode aparecer de diferentes formas:
Dividir uma tarefa em etapas menores;
Oferecer instruções claras;
Utilizar recursos visuais;
Antecipar mudanças;
Nomear emoções;
Fazer perguntas que estimulem o pensamento;
Dar tempo para que a criança encontre uma solução;
Ajudar na mediação de conflitos;
Reduzir gradualmente a ajuda conforme a autonomia aumenta.
O objetivo não é controlar cada ação da criança, mas criar condições para que ela desenvolva recursos próprios.
Quando o adulto resolve tudo imediatamente, a criança tem poucas oportunidades de planejar e experimentar. Por outro lado, quando exige algo que ela ainda não consegue fazer sem apoio, pode gerar frustração.
A mediação pedagógica encontra um equilíbrio entre oferecer segurança e permitir desafios.
Como as famílias podem ajudar em casa?
O cotidiano familiar apresenta muitas oportunidades para desenvolver essas habilidades, sem a necessidade de fichas, aplicativos ou brinquedos caros.
Algumas possibilidades são:
Pedir que a criança ajude a organizar objetos por categorias;
Criar sequências simples, como guardar o brinquedo e escolher um livro;
Brincar de imitar movimentos;
Montar quebra-cabeças;
Cozinhar juntos seguindo pequenas etapas;
Contar histórias e conversar sobre os personagens;
Praticar jogos de memória;
Oferecer escolhas limitadas;
Antecipar mudanças na rotina;
Permitir que a criança tente resolver pequenos problemas.
Também é importante respeitar o tempo necessário para uma resposta. Em algumas situações, os adultos repetem ou executam uma tarefa antes que a criança consiga organizar o que precisa fazer.
Esperar alguns segundos, observar e oferecer uma pista pode ser mais educativo do que apresentar a solução imediatamente.
Desenvolvimento não é competição
Cada criança possui uma história, um ritmo e um conjunto particular de experiências.
Por isso, as funções executivas não devem ser utilizadas para comparar crianças ou criar uma nova lista de desempenhos esperados. Uma criança pode demonstrar boa memória em uma brincadeira de que gosta e encontrar dificuldade em outro contexto. Fatores como cansaço, fome, ansiedade, excesso de estímulos e mudanças na rotina também influenciam o comportamento.
Quando uma dificuldade é intensa, frequente e interfere significativamente na vida da criança, a família pode conversar com a escola e buscar orientação profissional. O objetivo não é estabelecer diagnósticos a partir de comportamentos isolados, mas compreender o desenvolvimento de maneira cuidadosa.
Habilidades construídas todos os dias
Atenção, memória, flexibilidade e autocontrole não surgem prontas. São capacidades desenvolvidas progressivamente por meio das experiências e das relações que a criança estabelece.
Cada vez que espera sua vez, acompanha uma história, reorganiza uma construção, participa de uma rotina ou encontra uma nova solução, ela exercita habilidades importantes para aprender e conviver.
Na Escola Universo, compreendemos que educar na infância vai muito além de antecipar conteúdos acadêmicos. Nosso trabalho busca oferecer experiências que envolvam pensamento, movimento, emoção, criatividade, autonomia e relações sociais.
Com brincadeiras, projetos, interações acolhedoras e uma mediação pedagógica intencional, ajudamos cada criança a construir recursos que levará para diferentes momentos da vida.
Porque aprender não é somente acumular informações.
É também desenvolver a capacidade de prestar atenção, fazer escolhas, enfrentar desafios, conviver e descobrir novos caminhos.
Quer conhecer como essas experiências acontecem no cotidiano da Escola Universo? Entre em contato com nossa equipe e agende uma visita.
Referências para aprofundamento
Center on the Developing Child at Harvard University. A Guide to Executive Function.
Center on the Developing Child at Harvard University. Activities Guide: Enhancing and Practicing Executive Function Skills.
Center on the Developing Child at Harvard University. Brain-Building Through Play: Activities for Infants, Toddlers, and Children.

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